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A Arte Imoral. Alma e Sagração.

9 de junho de 2010 2

Nesse fim de semana tive uma experiência duplamente IMORAl, transgressora, ao avesso, deformadamente maravilhosa. Ao contrário mesmo. Do jeito que muitas vezes devemos nos ver e nos sentir.

Fui ouvir e navegar nas cordas e acordes magicamente escandalosos de Stravinsky e a SUA, e por que não dizer NOSSA, Sagração da Primavera. E já partindo para a outra experiência que rompe com o que achamos CERTO; fui ver, sentir e lembrar para sempre de A Alma Imoral de Nilton Bonder com a surpreendente Clarisse Niskier.

O que as duas “coisas” têm em comum ? Exatamente o que coloquei logo acima: o avesso. Tudo aquilo que achamos que conhecemos muito e dominamos de forma quase que irretocável, mas que de repente cai por terra, como uma avalanche nova e reconfortante de nos colocar como seres AINDA em processo de crescimento e por que não dizer de ignorância.
Imaginem um título como “A Sagração da Primavera”. Lindo não é mesmo ? Algo como pássaros leves, flores coloridas, borboletas lançadas ao vento, campos perfumados e para completar, umas camponesas ou até fadas por entre lindas árvores com frutos. Pois essa imagem é só uma imagem. Algo que nossa mente faz e constrói com aquilo que por muitas vezes queremos que seja. Há exatamente 97 anos atrás, esse senhor Stravinsky chocou o público nobre parisiense com a tal Sagração, que de acordes doces e leves, como as lindas e padronizadas imagens descritas acima, não tinha absolutamente nada.
O texto abaixo, fala um pouco do que ocorreu naquela noite e ele por si só representa a “imoralidade” insuperável do “louco” Stravinsky:

“O auditório ficou em silêncio durante dois minutos, depois, de repente, vaias e assobios desceram das galerias, acompanhadas logo em seguida pelas ordens inferiores. Houve espectadores que começaram a discutir e a atirar-se, uns aos outros, tudo o que tinham à mão. Em breve esta cólera se dirigiu contra os dançarinos e depois, ainda com mais violência, contra a orquestra, que era a verdadeira responsável por esta crise musical. As coisas mais variadas foram-nos arremessadas; apesar de tudo, continuamos a tocar…”

LINDO! RETUMBANTE grito de clamor ao que pode ser visto e sentido de forma diferente. Foi assim que me senti quando tive o privilégio de estar na Sala São Paulo ouvindo o “cataclisma sonoro” de Stravinsky. E para dar mais ênfase, lindamente interpretado (o tal “cataclisma”) pela NOSSA (essa sim é nossa mesmo) OESP, que me surpreende cada vez que tenho o privilégio de ouví-las com seus músicos de primeira linha, que não devem nada aos músicos lá de fora. Uma orquestra que entendendo e sentindo a força e a mensagem do compositor, parava estática e brilhantemente a cada forte acorde. Um silêncio imoral, desconhecido por muitos.
E o que Stravinsky quis dizer com a sua Primavera incandescente ? Isso mesmo. O incêndio daquilo que consideramos estabelecido ou que nos foi “ensinado” como certo. Como moral. Sair desse conforto do conhecimento conhecido é privilégio para poucos. Mas é exatamente nessa saída, nesse rompante de descoberta e desapego, que conseguimos crescer verdadeiramente. Que conseguimos entender o “outro” e nos distanciar, mesmo que por alguns instantes, do nosso lado crítico egóico.

Nesse mesmo “tom” da alma, vem Clarisse e Nilton (sim porque já são íntimos meus, porque tocaram o meu coração), com a SUA e por que não dizer a NOSSA Alma Imoral. Um texto brilhante e claro na sua confusão delirantemente avassaladora e esclarecedora, que nos faz recriar, repensar, resentir (no bom sentido), reavaliar, refazer. Tudo junto mesmo.
Lidar com a filosofia do estabelecido. Enxergar o certo e o errado em uma das formas mais simples que já vi na vida. Entender ou pelo menos saber sobre a obediência e a desobediência. E o mais impactante: entrar nas vísceras das fidelidades e das traições. Conhecer as razões e o funcionamento do traidor e o traído. Enxergar sem medo o justo e o injusto, a marginalidade e a santidade. Saber um pouco mais da alma e do corpo.
Essa imoralidade do saber e do mexer com o que está estabelecido e quieto (palavra que ouvimos muito quando crianças), foi e é sem dúvida, o combustível para sermos seres melhores, ou pelo menos para aprendermos a pensarmos, sentirmos e agirmos de forma diferente.
Assim mesmo, sagrando-nos imoralmente e corajosamente incorretos.

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Existem 2 comentários

  • Ronaldo disse:

    Pode ser perigoso, Nelinho, mas não há dúvida de que é mais gostoso ver o avesso.

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